Nunca um lugar abandonado

Manuel Rodrigues

Haverá sempre quem pense que o futuro está em branco ou que o passado não corre mais. Que há um território simples e virgem para ocupar onde tudo se pode recomeçar. Que se pode decidir com uma vontade limpa, sem escolhos nem obstáculo, de acordo com um desejo livre de influência e acidentes, independente e em absoluta liberdade. Quando se é jovem vê-se tudo por este olhar.
Mas há quem saiba que não é assim. Esses entregam-se a uma luta árdua, num jogo que não se pode ganhar. O seu combate desenrola-se, pela conquista permanente de um pouco mais de espaço nessa terra de confluência — onde efeitos ainda se sentem e as tendências já se impõem. Uns e outras desorganizadas e difíceis de destrinçar são, para cada um, uma fatalidade acidental.
A luta pela autonomia supõe a aceitação de um certo peso do passado e a aceitação do seu transporte sobre a pressão das vagas do futuro. A geração e a morte estão aí para lembrar os limites. Pela geração percebemos que o passado é uma corda que todos liga numa longa linha umbilical; pela morte percebemos que prolongá-la seria só esticar o passado para fora do seu lugar. Isso sentem-no bem aqueles que chegaram à grande idade de ver os seus todos a partir. Não se trata — como se se pudesse — de suportar todo o carrego do passado, atravessando incólume as ondas sucessivas do futuro, para entregá-lo ao seguinte como estafeta honesto e bravo; nem de aligeirar o peso, de passagem, deixando-a a afundar-se nas águas novas do esquecimento. O que mais custa é o que mais arrasta — não são a carga e as vagas : é a âncora do medo que nos atraca.
Para cortar nós e amarras é necessário saber de si como corda que também se parte, escolher o que levar e seguir. É por este saber de si que o corpo pisa a terra; e com ele se alcança o espaço próprio. Nessa luta, o corpo, e mesmo o conhecimento, é uma limitação — tal o futuro e o passado. Mas apenas esse saber pode fazer dos obstáculos meios e instrumento; trampolim, leveza e arma. Atleta, dançarino, ou ser guerreiro. Nunca peão domesticado pelo terror do fim a que muitos chamam amor à vida.
O combate não é pela mera sobrevivência mas pela conquista de um espaço vital. E é na luta por um lugar para o valor da vida — e não da eternidade — que se devem saber conjugar futuro e passado. É essa luta que transforma a fatalidade acidental em liberdade essencial.
Há claro quem ame a vida mais que a terra; quem queira apenas perdurar. Mas é pelas marcas deixadas na terra que se percebe que vida se teve e se desejou — o sabor que lhe foi dado. Aí se pode ler a que sombra se deitaram, como correram e onde pularam, com quem foi que se rebolaram — e aí revelam o seu saber. O amor à terra é melhor que o amor à vida.

 

Manuel Rodrigues 2004-07-13