Sem título

Rui Miguel Cepeda
(BA Arts Management; MA Cultural Studies)

As obras apresentadas são desenhos de um corpo que nos é ausente. Entre ‘ser’ e ‘estar’, as presentes obras de arte situam-se no ‘sendo’ ou no ‘tornar-se’, entre modos constituintes de interpretação. Ao invés da matéria particular de propriedades uniformes, elas trazem-nos o isto é quando não está, ou o isto está quando não existe, ou para se poder manifestar a obra tem que se inserir no todo sem ser parte constituinte do todo. O corpo da obra é um corpo que existe unicamente através da sua inexistência, uma alusão ao concebível que não pode ser apresentado.
A inteligência de este corpo para nos afectar está no ‘traço’, o qual liberta novas capacidades de acção e interacção com quem vê. É o ‘traço’ que se prolonga e demora indeterminadamente sobre o suporte que o define. Como linhas de fuga que ao invés de nos demonstrarem como as coisas ‘são’, traçam como as coisas se ligam. Uma tendência que poderá evoluir através de mutações criativas ao invés de ser transversal à ‘realidade’ constitutiva. E esta é a habilidade das obras de afectarem e serem afectadas.
As obras como montagens são desenhos que nos transportam do espaço público para o espaço privado e de seguida para o espaço público. Mas sempre no limiar onde os espaços co-existem e onde podem metamorfosear-se entre si. Indicativa de uma montagem de espaços, a qual nos faz permanecer num estado indeterminado onde nunca nos faz chegar a ser, ou sem nos revelar onde estamos. Quer retornando às linhas regidas por um sistema paralelo, quer operando enquanto submissas segmentações do mundo, ou quer evoluindo para uma criativa transmutação de montagens. Com a ausência dos referentes, as obras criam um espaço que desafia. De que forma? Desinvestindo os sistemas de significação e gerando novas percepções.

Rui Miguel Cepeda
(BA Arts Management; MA Cultural Studies)
Maio 2007