Arte e Criticismo para além da Coisa

Uma investigação sobre a autoria artística e o pensamento plástico ou o que é uma obra de arte?

A relação entre a História das Artes Plásticas e a História das Artes Literárias é estabelecida no projecto Estudo para uma Coisa, enquadrado no projecto maior Direito de Cópia, de vandanuno. vandanuno revela uma História da Arte mais vasta e assim como as influências e as relações da Historiografia, dos agentes Comerciais e da Teoria Literária e da Teoria da Arte. Neste projecto, Estudo para uma Coisa, revela uma História da Arte que se afirma como uma História de pensamento, onde a prática artística, a História da Arte, é uma prática de pensamento com directrizes distintas das Ciências Sociais e Humanas e das Ciências Naturais. A História da Arte é uma História do pensamento com peculiares características, com directrizes próprias que deixam em suspenso a sua concretização, dependente das relações de comunicação.
Quando vandanuno afirma “A relação do pensamento plástico com o literário não foi feita.” está correcto, vários são os estudos sobre as narrativas na História das Artes Plásticas, contudo não são estudos sobre as obras de arte literárias, mas estudos sobre as narrativas e conceitos e sua presença em pinturas e esculturas e vídeos, mas não são estudos sobre as artes plásticas e o pensamento plástico. Ou seja pensam-se as narrativas e os signos abstraídos da produção artística que é sempre autoral, porque é sempre um modo de pensamento, incluindo a intuição como uma estrutura de pensamento assente em conhecimentos amadurecidos e interiorizados. Encarar a arte como um modo de concretização de pensamento(1) implica um conjunto de dificuldades que tem sido apartado pelos investigadores e críticos, começando pela relação com o pensamento de alguém que interage de maneira intima connosco e, porque um pensamento de alguém que comunica de um modo provocatório, implica uma posição crítica.
Pensar a arte de modo a-critico não é pensar a arte, é descrever as formas e dar significados a significantes independentemente da arte.
vandanuno estabelece como orientação deste projecto artístico o estudo do “paralelo entre a comunicação plástica e escrita” literária no laboratório da arte. A noção de coisa de Martin Heidegger é aqui conceito chave para pensar tal paralelo mas também a própria arte e o modo como tem sido estudada por teóricos, críticos e historiadores.
Os esforços frustrados de artistas nas décadas de 60 e 70, da segunda Neo-Vanguarda, para se libertarem de situações de inversão de poder e estatuto têm em vandanuno uma outra premissa.
Durante as décadas de 60 e 70 os artistas de referência dessa época, em conformidade com o hodierno olhar da historiografia, lutaram contra o poder de legitimação da arte pelas autoridades da cultura vigente exteriores à História da Arte, da política e do “comércio de arte”. Esses artistas que foram, nessas décadas, rejeitados pelos circuitos vigentes, pelas academias centrais, fizeram um percurso numa cultura alternativa, com o tempo da história acabaram por ser reconhecidos. Contudo a sua obra apenas parcialmente, a directriz que visava chamarem a si a autoridade de legitimação da arte mantém-se apagada.
A ruptura epistemológica em vandanuno, apresentada com Estudo para uma Coisa, em Direito de Cópia, é um outro projecto, com diferente alcance mas visando a formação de outro paradigma, não apenas um questionamento, a discussão para o estabelecimento de directrizes para outro paradigma. É um projecto fruto do contexto de Pós-Modernidade-Tardia, da ineficácia dos paradigmas vigentes, e da necessidade de repensar a arte na história da arte que se faz no momento presente. É em momentos de falência do funcionamento de paradigmas vigentes que novas ideias emergem, que soluções e ideias se delineiam para fazer face a uma necessidade, à qual o paradigma, ou paradigmas, vigente já não têm capacidade de responder.
Com “Direito de Autor”, mais particularmente em “Estudo para uma coisa | A coisa e a obra”, 2012, não há apenas um questionamento do cânone artístico vigente e seus modelos de legitimação, comercialização e divulgação, há também uma proposta para um conjunto de directrizes para um novo paradigma, a serem dispostas para discussão.
Duas das questões presentes, indissociáveis, são o retorno do autor e o retorno do criticismo, reafirmando a arte como um pensamento crítico.
Depois das mortes: o renascimento do autor e a reformulação da autoria.
Michel Foulcault e Roland Barthes são particularmente relevantes no pensamento sobre o autor e autoria pela sua afirmação da morte do autor e porque são autores de referência do Postmodern Turn, da década de 60 do século XX, determinando uma corrente de pensamento ainda vigente.
O Postmodern-Turn na década de 60, que se institucionalizou com o Maio de 68, estabeleceu um pensamento determinado pelos pensadores pós-estruturalistas franceses, nomeadamente Michel Foucault, Roland Barthes, Jacques Derrida. Na base do pensamento encontra-se um afastamento do autor e sequente dirimição da autoria, ou dos elementos de autorialidade nas obras de arte. O pensamento Pós-Estruturalista centrou-se nas formas narrativas e nas relações de significantes e significados despojados do pensamento dos artistas, dos autores que escreveram obras de arte literária e executaram obras de artes plásticas.
Michel Foucault procurou afastar o autor da obra de arte e Roland Barthes procurou, numa atitude platonista, matar o autor como se a obra de arte pudesse existir, ser criada, sem o pensamento de um artista, como se existisse a priori num “Mundo das Ideias”.
O Platonismo de Barthes, que domina em determinadas instâncias o pensamento Pós-Moderno, de ideias que existem sem o seu autor, onde a identidade das ideias existem desprovidas de um origem individual, de uma identidade que, existindo previamente, permanece nelas após a separação do autor com as mesmas por serem uma concretização do pensamento de um autor. O anonimato não é ausência de autoria, é apenas a carência da identificação da identidade do autor.
A rejeição do autor, num afã de uma obra aberta, sem criador, sem passado e sem um pensamento com o qual lidar, revelou-se uma tentativa utópica e ingénua de libertar a arte de quaisquer grilhões, uma arte onde toda e qualquer interpretação seria válida. Ora tal arte, a existir, seria desprovida das directrizes provocatórias que exigem, em várias instâncias, o pensamento, um diálogo entre obra e experienciador. Experienciar uma obra de arte é entrar em território desconhecido, do pensamento de outrem. O autor não subsume a obra, a obra vive para além dele, mas é no autor que reside a genealogia da obra, a sua identidade, é a concretização de um pensamento. Uma obra de arte sem autor, sem autoria, seria apenas mais um objecto material desprovido do carácter de arte. Pensar a arte não é fácil, mas é na sua complexidade que a arte é tão valiosa e relevante para a História do Homem, remetê-la para condição de uma imagem, de um texto narrativo, remetê-la para os calabouços dos museus é negar a sua condição de obra de arte, que vandanuno reivindica.
Em Estudo para uma Coisa o autor, vandanuno, partilha a sua obra, em função da autoria que permanece na sua criação enquanto cópias, o original e a cópia de autor, revela um novo espaço expositivo. A cópia de autor encontra o seu espaço expositivo no território de todos o que a desejam. O erro de Barthes revela a importância do autor nas propostas artísticas de vandanuno.
O autor não é totalmente exterior à obra, na medida em que a obra é uma concretização do seu pensamento, é um desafio que exige uma dialética com quem experiencia a obra. A autoria é um elemento fundamental da obra de arte, independentemente do seu autor estar devidamente identificado. A autoria é o pensamento, racional ou intuitivo, que constitui a obra, no território epistemológico e/ou técnico. O enquadramento, não a composição, de um dado, de um existente revela um recorte particular, individual, que integrado num território de determinações e explorações técnicas, epistemológicas e estéticas que dispõe uma autoria, um pensamento individual.
Em vandanuno a autoria permanece, indelével, nas determinações do objecto material em que a cópia ocorre enquanto obra de arte, tanto em cada imagem como no contexto do projecto Direito de Cópia.
A obra deixa de pertencer ao autor, por escolha deste, mas a autoria permanece. Quem experiencia a obra é, não um autor, mas um elemento que compõe a obra de arte, pois é com ele que a obra é actualizada em função de um conjunto de directrizes que estruturam a obra.
Ao longo da Era Pós-Moderna as declarações de morte foram uma constante, após a declaração da morte de Deus por Friedrich Nietzshe, ainda na Era Contemporânea. A declaração de morte de Roland Barthes, Morte do Autor, e de Hans Belting, da História da Arte, são assaz revelantes.
A História da Arte é efectuada pelos artistas e composta pelas obras de arte. Hans Belting referia-se à Historiografia da História da Arte, mais concretamente ao fim do paradigma vigente da historiografia que deveria ser alvo de um revisionismo e desenvolvimento de novo paradigma historiográfico.
O pensamento vigente desde o Post-Modern-Turn é um pensamento da Teoria da Comunicação sobre a representação e seus dispositivos, onde as obras de arte são coisas onde se dá a representação. Este pensamento de análise, vigente na historiografia, na teoria e na crítica, coloca o pensamento dos autores, que se encontra presente nas obras de arte, que fazem delas obras de arte, no exterior do objecto e apenas analisam o modo de representação, que é o seu objecto de investigação, e colocam no objecto material onde a arte se dá o que não lhe pertence.(2) A obra de arte é a acção de um artista, ou colectiva de artistas, que tem de ser recebido, com o qual alguém tem de lidar enquanto obra de arte para concretizar a sua natureza de obra de arte. As representações são os experienciadores que constroem no acto de cognição da obra de arte, para responder aos estímulos processados pelo processo de cognição que é a obra de arte com a sua acção, por parte do artista, efectuada na coisa.
A arte e a coisa é uma questão fundamental que é necessário pensar e que vandanuno pensa. Que faz vandanuno? Pensa a questão na sua plenitude e consequências, coloca a questão no que é a obra de arte, a partir do pensamento crítico de Martin Heidegger para efectuar um pensamento próprio e crítico, retomando o criticismo ausente das últimas décadas, na cultura Pós-Moderna. O pensamento da coisa e a determinação das directrizes da coisa material para concretização da obra de arte reclama a autoria e o autor como determinação da obra de arte e do pensamento.
Em O que é um autor? Michel Foulcault atesta uma morte do autor, evocando a morte dos herois na narrativa clássica, proveniente da narrativa grega. A narrativa despojada da vida, a narrativa despojada do autor, a narrativa despojada da imortalidade do autor pela autoria patente na sua obra. A grande dificuldade é a vida, a existência de algo que pode contrariar as análisas críticas é rejeitado apartando a vida, o autor e a sua autoria, tornando os autores em nomes num conjunto de narrativas no magma da história da Literatura como História da Narrativa. A crítica, o ensaísmo e a historiografia Pós-Moderna assumiu uma posição a-crítica, pela deslocação do autor, tornando a autoria irrelevante, os signos, a linguistica, a estética é um universal passível de qualquer ligação validada pela sua performatividade, pela sua publicação, numa afirmação autoral por parte dos teóricos que a negam. Direito de Autor de vandanuno vem recuperar a autoria da obra de arte para o seu autor, removendo-a dos teóricos.
Para Michel Foucault todos os autores literários são escritores, mas nem todos os escriores são autores literários, desta análise sobre a literatura estende-se às arte plásticas onde todos os autores de arte são artistas, no caso de pintura são pintores, mas nem todos os pintores são artistas, nem todos os que produzem imagens são artistas. Embora reconheça e analise o autor Michel Foucault rejeita-o da análise dos dispositivos de representação, com receio de que tal possa afectar o significado ou o valor da interpretação alcançada. Contudo o autor é uma figura sempre presente pelos traços da sua autoria na obra, é a autoria presente que a determina como uma obra de arte e não como uma mera narrativa ou uma mera imagem. A determinação da autoria no modo de se dar-da-obra, que vandanuno apresenta, não é uma limitação à experiencia da obra, é uma recusa da limitação a uma experiência de uma imagem enquanto representação, uma recusa ao entendimento da obra de arte literária como de uma mera narrativa, não experienciada como obra de arte.
As determinações de impressão e existência que vandanuno estabelece para as coisas de Estudo para uma Coisa são as condições objectuais da obra de arte, fundamentais para que se dêm no Mundo como obras de arte, fundamentais para o agenciar da obra de arte, o seu modo de se dar-no-mundo em conformidade com o pensamento do seu autor. A condição artística não está desligada da sua autoria, esta está sempre presente.
A coisa material da obra de arte é o resultado do acto de pensamento do artista, é a sua escrita. Porque todo o acto de cognição tem como efectuação, como compleição o ser em acto, também o pensamento plástico tem como seu modo de se dar a concretização nas obras de arte.
Em Martin Heidegger há um pensamento autoral filosófico, desenvolvido por um autor, Martin Heidegger, é um pensamento que não existiria sem este autor, é um pensamento desenvolvido por um conjunto de experiências, de inteligência, criatividade, de uma especifica relação com o ambiente por um específico individuo que se concretiza na coisa, o texto, que se dá-no-Mundo através do objecto material, o livro. Em Martin Heidegger existe também um pensamento sobre a autoria e a necessidade de a autoria se confrontar com a recepção por parte de terceiros.(3) Pensar é viver e toda a vivência é individual num contexto colectivo.
O autor é o responsável pela obra de arte, a sua autoria é o pensamento que se concretizou nessa coisa de arte, num objecto material. A obra de arte enquanto concretização de um pensamento plástico vive para além do seu autor, numa existência própria suscitando interrogações, efectuando provocações, rasgando subversões no cânone vigente que têm consequências e leituras que acompanham o tempo em que o objecto perdura e funciona, para além do pensamento estrito do artista ali concretizado.

A coisa, o pensamento plástico e a obra de arte

A obra de arte, para Heidegger, dá-se-no Mundo pela sua coisalidade, pelas qualidades de coisa, e é pela sua natureza do dar-se no Mundo que manifesta em objectos materiais(4) A obra de arte articula e reconfigura a epoché do Mundo a partir do interior desse Mundo. O projecto Estudo para uma Coisa revela a necessidade da cultura da Pós-Modernidade-Tardia repensar a arte no seus modos de se dar, de se legitimar, de se difundir, de se expressar. O projecto Estudo para uma Coisa revela a obra de arte como mais do que uma coisa, como mais do que a expressão de uma visão, como mais do que uma rede de signos, é um território de pensamento em constante desafio ao Mundo e à sua recepção, numa dialética em aberto, onde se conjugam as demais características em conformidade com as determinações de um autor num objecto material.
Este aspecto de dialéctica em constante funcionamento é coincidente com o conceito de arte e Heidegger, onde uma obra de arte para sê-lo tem de funcionar, tem de estar em constante confronto, desafio, provocação com quem efectue a recepção das mesmas, que sejam no Mundo.
Para funcionar necessita de se dar num objecto material, que agencia o modo de se dar-da-obra em funcionamento, requisito fundamental. Funcionar é activar a dialética de interpretação de um pensamento, uma recepção crítica de um pensamento artístico que desafia. A situação mais evidente e regista são as reacções violentas como a ocorrida com a obra Danae de Rembrandt em 1985, que foi danificada com recurso à aspersão de ácido e punção com lamina da tela.Uma obra Barroca que no final do século XX continuou a causar reacções.
No caso da obra literária o que o experienciador adquire e manuseia não é a obra, é a cópia, todo o livro é uma cópia da obra disposta num objecto material. A obra tem um valor superior ao do livro, a obra existe através do livro mas não se reduz a este na sua materialidade e ao valor dos seus materiais constituintes e custos de distribuição. A possibilidade de concretizar a coisalidade(5) da obra de arte no objecto material é algo que é possibilitado nas artes plásticas com o uso de suporte de “reprodutibilidade técnica”(6), particularmente quando envolve o uso de informações digitais. Contudo para tal se efectivar como uma cópia-original, como obra de arte é necessário cumprir as indicações formais de traduzir a coisa do suporte digital para o suporte material.
A interpretação não é a criação da obra de arte, é a actualização, a activação do funcionamento da obra que é pressuposta pelo autor. A criatividade encontra-se patente em quem experiencia, mas a recriação da obra pela interpretação, é um acto dependente e em relação a um pensamento existente, porque toda a obra de arte tem um território especifico, estabelecido pelo pensamento que a constitui, sendo uma das directrizes a existência de um experienciador da obra, é feita para alguém, individual ou abstracto. A interpretação por parte do leitor ou experienciador é uma actualização da obra de arte, é um estado necessário pressuposto na criação artística. O leitor e experienciador confirmam a legitimidade artística e concretizam a obra de arte, pois a obra de arte foi criada para um público, é uma expreesão que pressupõe um elemento que a receba e, por essa via, a complete. O leitor e as leituras a efectuar são um pressuposto em todas as obras de arte. Em Estudo para uma Coisa, de vandanuno, o experienciador tem a possibilidade de concretizar o próprio objecto, de objectificar a coisa, de transpor as informações digitais para um suporte material, legitimando a obra, recepcionando a obra de modo activo.
O livro providencia-nos com uma coisa material, manuseável, um contentor da obra que é entendido como a obra. A coisificação é uma objectualização material.
O autor é mais do que a sua obra, mas também a obra está para além do seu autor. A coisa encontra-se em constante mutação, na medida em que é sempre uma interpretação humana em função dos indivíduos e da epoche em que existe, em que se continua a dar após se separar do seu autor e deste morrer. A autoria permanece nesse pensamento que criou e se concretizou como obra de arte. A concretização num objecto que se adequa ao objecto livro é um dado fundamental neste projecto e na realização da obra cujos objectos devem ser agregados num objecto agregador “ num envelope ou bolsa para A5, de preferência em plástico transparente. Guarda-se na biblioteca ou em cima de uma mesinha, acessível a todos.” A relação com a manuseabilidade, mais concretamente com a proximidade ao objecto material, do livro, na biblioteca e na mesa de cabeceira é um dado de vivência, do experienciar da obra pela relação com a materialidade agenciadora da obra de arte.
O livro não é a obra, é uma cópia original da obra na condição de objecto material, uma cópia que segue os preceitos da obra original. O texto tal como escrito pelo autor na sua lingua materna e revisão final autorizada é a efectiva obra, que se encontra exarada nas páginas do livro, palavra por palavra. Claro que as traduções apresentam uma particular questão, mas para a presente questão atenhamo-nos ao texto original, com as palavras originais, com as vírgulas, parágrafos, etc. Um livro é uma coisa para ser apropriada enquanto objecto que possibilita a mediação com a obra, é um agenciador.
Recordemos os Maias de Eça de Queiroz e o modo de usar as enumerações e as sinestesias, modelando a imagem como se usasse largas pinceladas ou apontamentos de cor cenograficamente tralhados, estabelecendo a luminosidade e os sombreados e as texturas como os pintores naturalistas, ao que acresce a ideia de paisagem e de enquadramento.
As estratégias naturalistas presentes nos Maias de Eça de Queiroz são um bom exemplo, por analisar, de elementos plásticos na literatura. A redução a elementos formais do desenrolar da narrativa na literatura e a análise de obras de arte pelo momento chave ou símbolos objectuais que subsumam a narrativa, entendida de um modo impessoal, como se não houvesse autores, apenas técnicas semióticas reduzem a dimensão de comunicação do autor e a sua autoria nas obras, sejam literárias ou plásticas.
A morte ou exclusão do autor e da autoria demonstra uma busca por uma visão a-crítica dos textos e das imagens, destituindo-as do carácter artístico. A autoria é um elemento complexo, a sua ausência facilita a análise semiológica e semiótica. Lidar com o pensamento de outrem é sempre difícil, mas é esse pensamento que determina a sua condição artística, é esse pensamento que constitui a autorialidade da obra. Pensar a evolução da estrutura literária de William Faulkner de O Som e a Fúria , na sua primordial fase, para a Luz em Agosto, evoluindo de uma forma simples para uma complexidade de ritmos, de montagens, só pode ser efectuada em função da autoria, caso contrário tais obras são entendidas apenas como textos narrativos sem qualquer ligação, não são entendidos como obras de arte literárias, apenas referidos como tendo esse estatuto pelos teóricos da escola de teoria e crítica de Roland Barthes ou Michel Foucault. Em vandanuno a pesquisa artística de Estudo para uma Coisa explora a autoria artística, a arte como pensamento do autor-artista, como modo de expressão artística, colocando em discussão a própria noção de arte.
Em sem título, Estudo para uma Coisa, a questão da representação é colocada em causa. Uma imagem fotográfica, com efeito nublado, de uma cama surge como uma revelação da transparência enquanto dispositivo artístico para a ligação de representação do que a imagem substitui. A transparência, a representação mimética, que a fotografia veio potenciar, revelou-se nos discursos Pós-Modernos como um signo que está ao invs do objecto, pensamento devedor da teoria do simulacro. A obra de arte não substitui um outro objecto, não está ao invés de uma cama ou de um quarto com cama, a obra de arte é um objecto em si por si que tem em si um pensamento que abre um mundo pelas directrizes da autoria do artista. A representação fotográfica, no contexto artístico, não é um mero recorte do real, é um processo efectuado sobre o real pelo pensamento do artista, um olhar intencional assente em estruturas de pensamento desenvolvidas em função de intenções, de técnicas, de ética, de epistemologia, de estética artística. O objecto cama presente na representação domina a percepção, porque a percepção tende à identificação de objectos materiais.
O afã da desterritorialização Pós-Moderna das obras de arte analisadas, estudadas, apenas como imagens, como representações de algo que é exterior à obra, falham no entendimento da arte, fugindo às questões difíceis. Para estas perspectivas a arte é entendida apenas enquanto imagem, visualizadas independentemente do que as determina e as dispõe no contexto artístico, significam o que o teórico quer, porque a interpretação tem uma subjectivação total desprovida de um pensamento inerente.
A poesia, a obra literária e a obra de arte plástica e performativa é percepcionada pela sua objectualização material, enquanto objecto, no livro e na tela, no papel impresso, enquanto coisa. O suporte específico não é a coisa de arte, não lhe pertence, é apenas um suporte de objectualização da coisa pictórica, como é visualizada tendencialmente a obra de arte. A tela da pintura não integra a obra, a obra é a camada cromática e a tela é um suporte que permite a sua sustentação numa condição para mais conveniente manipulação enquanto objecto. Em vandanuno a coisa é a imagem na sua dimensão estipulada, ou seja a dimensão da obra no exterior da Internet, da passagem de um suporte de transporte para um suporte material. A concretização em qualquer suporte tem como determinação a impressão em conformidade com a imagem tal como está determinada em cor, em definição e em dimensão espacial. Contudo a obra de arte de vandanuno não são coisas, são mais do que isso, são obras de arte e, por isso, contêm autoria. A captura de um padrão de pedras, num dado ângulo, num dado recorte, com uma dada luminosidade, com uma dada textura é uma especificidade autoral-artística, que se enquadra num dado território de pensamento artístico que se expressa de modo próprio e se distingue de imagens desprovidas de autoria-artística. A determinação da coisalidade da obra de arte para a sua objectualização é elemento relevante, embora não subsuma a obra, pois é através dessa objectualização da coisaificação que a obra é recebida. O medium, mais do que a matéria é a determinação da coisificação. A comercialização da arte por certas instituições juntam-se “às tiranias das editoras e grandes estruturas” através do domínio da objectualização da obra de arte. A isto acresce que objectos vendidos por galerias de arte e editoras não podem ser divulgados em público sem consentimento do autor. Vende-se o objecto mas não o direito de autor, como alguns artistas têm explorado mais recentemente.
Em Passeio, Estudo para uma Coisa, um fragmento do real é salientado, algo que passa despercebido no consciente mas que influi no modo de ver, e como tal de ser, no mundo. O Mundo é constituído pela ligação de pequenos elementos pela nossa percepção, são as pequenas percepções que influenciam a Vida.
Observa-se em sem título uma janela em primeiro plano, num perspectiva do interior de uma assoalhada, com um pedaço de madeira horizontal, seguida de uma rede e ao fundo, é discernível, a janela de um imóvel branco. Coisas identificadas numa objectualização da percepção. Coisas identificadas em sequência, em níveis de sobreposição, como aquilo que percepcionamos no Mundo. Coisas hierarquizadas em função da atenção da visão e do binómio consciente/subconsciente. Coisas identificadas como tradução dos processos abstractos da percepção do Mundo, como modos de ser no Mundo. Coisas objectificadas como modo de comunicar, de pôr em comum, a exploração de uma questão abstracta efectuada pela imagem concreta.
A autorialidade determina a especificidade artística da obra de arte, a autorialidade constitui o modo de expressão com o qual o observador se confronta, dialoga, debate, a representação é um possível, não uma exigência sine qua non.
O objecto revela uma particularização material familiar de proximidade, a concretização formal da coisa no seu pragmatismo, na sua manuseabilidade, é um modo de se dar da coisa. A coisa por si é um particular abstracto, é na sua objectualização que se processa uma relação directa, uma ligação, uma provocação imersiva. As instruções de “Estudo para uma Coisa/A coisa e a obra”, de vandanuno são uma cartografia, directrizes para se concretizar a coisa enquanto objecto numa cópia-original, nas suas coordenadas materiais para se verificarem as condições de se dar da obra de arte. As coordenadas do objecto, as suas dimensões materiais são fundamentais para a identidade da obra de arte, para o agenciamento da obra de arte pelo objecto. É no cumprimento das condições de objectualidade que a cópia se revela como uma cópia-original.
A deslocação do que normalmente é percebido como a coisa, a imagem fotográfica, para um espaço no interior de uma página A5 ou em formato superio para ser dobrado ao meio, perturba provocatoriamente a percepção na sua objectualidade. A trasnferÊncia da coisa do espaço digital para o espaço material, da impressão, altera a percepção. O modo de se dar da coisa revela a verdadeira cartografia da obra de arte, agenciando a obra de arte por essa dimensão material em papel. No ecrã de computador o branco é percepcionado como um fundo, pelas características próprias da percepção em computador, contudo a obra não foi feita para ser percepcionada em computador e é nas suas dimensões estabelecidas concretizadas em papel no confronto com o espaço, e como tal com o tempo, que se dá a obra de arte. A acessibilidade pelo manuseamento dá à obra de arte, enquanto cópia-original, uma relação com quem a experiencia de próximidade, de memória pelo objecto, numa próximidade com o livro. “As imagens de formato superior a A5 deverão ser dobradas a meio. Junte tudo num envelope ou bolsa para A5, de preferência em plástico transparente. Guarda-se na biblioteca ou em cima de uma mesinha, acessível a todos.” O arquivo de biblioteca, a manuseabilidade do livro de cabeceira é claramente evocado, a materialidade do objecto, do dar-se da coisa, como elemente agenciador fundamental para experienciar a obra, sem a fazer refém como tem sido apanágio de uma politica de legitimação comercial da arte.
É um modo de ser relacional, face ao livro, face ao cânone vigente da arte, face a quem experiencia a obra.
Em sem título, Estudo para uma Coisa, observa-se o reflexo de uma figura feminina num vidro, em continuidade com a forma de uma escada, no interior, onde se dispõe a sombra da mulher numa posição mais baixa, por entre a imagem reflectida da natureza exterior. Interior e exterior, reflexo e imagem directa, luminosidade e sombra entram em jogo num questionamento provocatório autoral, onde a concepção de arte platónica nos coloca em confronto com a rejeição do autor e da autorialidade. A sombra da Caverna de Platão, o reflexo da vitória do simulacro Nietzshiano que se afirma e a deslocação da imagem fotográfica no fundo branco que abandona a sua condição de suporte para se afirmar como parte da obra. Há um desafio ao observador, ao experienciador, um desafio formado por um pensamento que desafia uma recepção crítica, porque o pensamento de base é crítico, não uma mera imagem com signos a serem interpretados em função de um dicionário ou enciclopédia de significados universais que não reconhecem a especificidade do autor, do que o artista coloca em questão e do modo próprio que o artista coloca em jogo, do que constitui um elemento fundamental de definição da obra de arte, de distinção entre arte e imagem, entre objecto artístico e objecto mundano.
A relação com a obra de arte é, assaz visível em vandanuno, uma relação dialética, porque a obra de arte não é um mero objecto material com representações exaradas, é um pensamento em acto que desafia o observador. Neste entendimento, recuperando Martin Heidegger mais uma vez, a obra de arte para o ser tem de ser recebida enquanto tal, a obra de arte necessita de “funcionar”, de ser actualizada pela recepção do seu pensamento com o do experienciador e com o tempo em que a obra existe, tem de ser no mundo enquanto pensamento activo, desafiante, provocador, questionador, não como mera narrativa ou simples agregado de símbolos, referentes, etc. É na dificuldade de a abordar, é na relação com o exterior que a obra de arte é, se dá-no-mundo enquanto obra de arte e não mero objecto material. A obra de arte enquanto tal é uma entidade com uma vida própria, que necessita da vivência, do dar-se-no-mundo enquanto obra de arte, para ser obra de arte. O pensamento que constitui a obra de arte é a autoria, a sua concretização enquanto coisa e materialização em objecto são elementos de agenciamento do pensamento artístico e como tal não podem ser removidos sem se remover o ser-arte da obra de arte, reduzindo a existência a um objecto material.
O subconsciente, o espaço de pensamento e a relação do pensamento com o Mundo, um espaço em branco onde o acontecimento se dá é observável nos trabalhos de Estudo para uma coisa. O Mundo é uma abertura onde agimos, o espaço branco é o território da obra de arte, como tal está patente dentro da coisa e tem de ficar no objecto material em que a obra se dá. A colocação da imagem fotográfica no Mundo como espaço aberto à inscrição é o pensar da obra de arte no Mundo. A relação do objecto em que a obra de arte de Estudo para uma coisa se dá com o livro, enquanto objecto onde a obra literária se dá na sua coisalidade, é uma determinação de relação com o Mundo, com a efectivação do funcionar da obra de arte heideggeriano.
O pensamento dos pensadores pós-modernos destituiu as obras de arte da sua essência de obra de arte, e colocou nelas o que lhes era exterior, ou seja, a autoria dos que as analisavam enquanto representações, narrativas, objectos materiais com signos. Desta forma ficaram impedidos de aceder às obras de arte.(7) Para se redescobrir a arte, para se atribuir a objectos em museus, colecções e galerias a sua natureza artística é necessário destituí-las do que lhes é exterior e procurar o que lhes é interior na sua fundamental relação com o Mundo.
A coisalidade, ou o objecto material da obra não ocorre enquanto obra de arte se o objecto estiver despojado da sua natureza artística, do pensamento plástico do autor, se a coisa que se concretiza no objecto material for desnudado da autoria, do pensamento do artista(8), que vandanuno pensa plasticamente.
Esse pensamento plástico, que constitui a obra de arte, de vandanuno coloca-nos numa dialética entre o pensamento e o acto, entre a coisa e a obra de arte na sua plenitude. Esta dialética ocorre num momento de grandes transformações civilizacionais, às quais a História da Arte não é alheia, antes pelo contrário é influênciada e influencia-as.

Victor Hugo Leal
Investigador Associado
em História de Arte Contemporânea
do Instituto de História da Arte (Universidade Nova de Lisboa)

1 – “Que medo é maior nos nossos dias do que o que há perante o pensar? Falar de obras imortais e do valor eterno de arte terá sentido e conteúdo? Ou tudo isso não são mais do que modos de falar, semipensados, numa época em que a grande arte, e com ela a sua essência, abandonou o homem?” Martin Heidegger citado por vandanuno em Estudo para uma Coisa
2 – “Mas é a obra alguma vez acessível em si? Para tal se conseguir, seria preciso retirar a obra de todas as relações com aquilo que é outro que não ela.” Martin Heidegger citado por vandanuno em Estudo para uma Coisa
3 – “Vivência é a fonte determinante, não apenas para o apreciar da arte, mas também para a sua criação. Tudo é vivência” Martin Heidegger citado por vandanuno em Estudo para uma Coisa
4 – “A tentativa de apreender o carácter coisal da obra, através dos conceitos habituais de coisa, fracassou “ Martin Heidegger citado por vandanuno em Estudo para uma Coisa
5 – Martin Heidegger, O que é uma coisa?
6 – Walter Benjamin
7 – “Mas é a obra alguma vez acessível em si? Para tal se conseguir, seria preciso retirar a obra de todas as relações com aquilo que é outro que não ela.” Martin Heidegger citado por vandanuno em Estudo para uma Coisa
8 – “A coisalidade na obra nunca poderá ser encontrada enquanto o puro estar-em-si-mesma … da obra não se tiver claramente manifestado.” Martin Heidegger citado por vandanuno em Estudo para uma Coisa